No cristianismo primitivo, liturgia e comunidade relacionam-se estreitamente como exigência de fixar a profissão da religião e de manifestar seu conteúdo em formas visíveis.
Uma sumária liturgia cristã já está contida nos Atos 2,46-47: conclui-se do texto que os primeiros cristãos de Jerusalém costumavam participar ainda das orações israelitas do templo, enquanto tinham em casa os ágapes eucarísticos.
O termo liturgia reaparece nos escritos extrabíblicos de origem judeu-cristã, na Didaché 14, onde o vocábulo refere-se claramente à celebração da eucaristia unida às orações de agradecimento: "Todo domingo nos reunimos, partimos o pão e damos graças...", e na primeira carta do papa Clemente, que explica o culto cristão baseando-se no culto hebraico.
Certamente, a primeira Igreja apostólica, ao renovar totalmente o conteúdo do culto litúrgico, pois acontece na nova realidade do sacerdócio de Cristo, não ficou sem sofrer influência de sua origem hebraica.
Todavia, a primeira descrição importante da liturgia cristã é fornecida por Justino em meados do século II: já estão definidas as duas partes essenciais da missa, a dos catecúmenos, com leitura dos textos sagrados, e a dos fiéis, que compreendia o sacrifício eucarístico.
"No dia do sol, todos se reúnem; lêem-se trechos dos escritos dos Apóstolos e dos Profetas; seguem-se a homilia e orações de intercessão; então trazem-se pão e vinho misturado com água e o presidente da assembléia pronuncia sobre eles, "do melhor modo que sabe", orações e agradecimentos, a que todos respondem com um AMÉM; os dons assim "eucaristizados" são distribuídos a todos" (Apol.I, 67).
Ainda Justino, confirmado depois por Tertuliano e Hipólito, dá-nos notícias das primeiras liturgias cristãs a respeito da administração do batismo e da celebração da Páscoa cristã, já totalmente separada da judaica.
A "Tradição Apostólica" de Hipólito conhece, ao lado da ceia comum, uma espécie de "lucernarium" ou culto vespertino. Alguns anos antes, Tertuliano fazia referência a momentos cotidianos de oração, que nós hoje chamamos de "liturgia das horas".
A partir da segunda metade do século II e, depois, no decurso do século III, já se celebram as memórias dos mártires no seu "dies natalis", com a celebração da eucaristia sobre a tumba deles, seguida de uma refeição em comum.
No decurso do século IV, os termos bíblicos neotestamentários passam, por simples transliteração, do texto grego para o latino na Igreja oriental de língua grega. Ao contrário, na Igreja latina isso não acontece: de fato, ela permanece estranha à linguagem litúrgica latina e o termo "leitourgia" é traduzido por "officium, ministerium, munus...".
A primeira reunião de fórmulas litúrgicas na Igreja ocidental remonta ao papa Símaco (498-514) e ao papa Leão (440-461). Ainda no decurso do século IV começam a se formar as famílias litúrgicas, que se diferenciam e se definem entre os séculos IV e VII e podem ser agrupadas em liturgias orientais e liturgias ocidentais.
O primeiro elemento diferenciador fundamental foi a língua: do aramaico dos primeiros judeu-cristãos ao grego dos helenistas. As primeiras igrejas formaram-se nas grandes metrópoles do mundo de então: em Jerusalém e em Antioquia, onde os discípulos, pela primeira vez, foram chamados de "cristãos" (Atos 11,26), em Corinto e em Roma, em Alexandria e em Éfeso, bem como no norte da África latino, ou seja, Cartago.
Tinham os Apóstolos constituído nessas cidades a base da nova religião; seus sucessores, muitas vezes grandes figuras de bispos santos, contribuíram para isso.
As liturgias orientais conservaram fielmente o aspecto primitivo tirado das Igrejas de Jerusalém e de Antioquia; o núcleo dessas liturgias constitui-se da "anáfora", oração de oblação, e do "prefácio", em que o conteúdo das fórmulas varia de acordo com as solenidades e os tempos festivos; a elas juntaram-se os sírios católicos e monofisistas, bem como os Maronitas que seguiram a liturgia antioquena interpolada com elementos do rito romano.
A liturgia siríaco-oriental teve seu centro em Edessa e foi depois adotada pelos nestorianos. A liturgia egípcia, muito antiga, conservou-se entre os monofisistas e católicos coptas.
Na Ásia Menor, nasceu o rito bizantino, que foi depois substituindo as liturgias orientais e é hoje o rito dominante; a ele pertencem todas as Igrejas ortodoxas. Esse rito passou também, traduzido nas respectivas línguas, para os eslavos católicos e descendentes, para os melquitas siríacos e árabes, para os georgianos e para os romenos.
A liturgia armênia deve ser considerada à parte. As liturgias ocidentais que tiveram suas matrizes em Cartago e Roma mudaram, depois do século VI, sob a influência do ano eclesiástico. No lugar do formulário único das liturgias orientais, constituiu-se no ocidente o "sacramentarium", um livro completo que continha as missas de cada dia, e o "missal".
Nascem os diversos ritos: o "galicano" do qual se separou na Espanha a liturgia moçarábica; na Itália setentrional, o rito galicano teve influência sobre o rito romano e o encontro das duas liturgias fica evidente no rito "ambrosiano". O rito romano conservou invariável o "cânon", que, por conteúdo e forma, difere da anáfora oriental.
A redação definitiva do cânon romano foi feita somente por São Gregório Magno; sobre as partes variáveis da missa romana têm-se diversas coleções dos tempos mais antigos. O "Sacramentarium Gregorii" foi enviado a Carlos Magno pelo papa Adriano I. Desse modo a liturgia romana adquiriu muitos elementos galicanos e dessas misturas nasceram variedades locais, suprimidas depois pelo concílio de Trento.
No século VII, busca-se uma certa uniformidade nos ritos, mas a exuberante infiltração de devoções populares altera a linha sóbria e tradicional da liturgia romana.
A Idade Média carrega o peso de um forte obscurantismo, inclusive litúrgico. Pio V será o papa que, em 1570, pondo em prática os decretos do concílio de Trento (1545-1563), empreenderá a reforma litúrgica, que levará seu nome e será continuada por seus sucessores até Paulo V (1614).
A reforma protestante rompeu decididamente com a liturgia tradicional, procurando simplificar sua estrutura e tornar o culto mais popular, com a introdução da língua vulgar e uma participação mais direta dos fiéis no rito. Lutero, propondo-se a purgar a missa latina de qualquer acessório, manteve seu esquema geral, mas tirou o ofertório e transformou o cânon, embora tenha deixado as perícopes e as coletas; manteve as vestes sacras, o altar com os candelabros, o acesso à comunhão e sua administração, mas deu nova interpretação à elevação.
Esse sistema enfraqueceu durante a guerra dos Trinta Anos. Também Zwingli suprimiu todas as partes integrantes latinas, abandonou todo o esquema da missa e separou, por princípio, a prédica da comunhão. Calvino, por sua vez, no regulamento por ele introduzido em Genebra, mostra-se dependente de Lutero e de Zwingli, mas sobretudo de M. Butzer.
Constituiu um serviço religioso diferente do romano e do luterano: uma mesa no lugar do altar; separação entre a prédica e a comunhão e, nesta, o pensamento não deve se fixar no pão e no vinho, mas os corações devem se elevar ao alto, onde Cristo vive na glória do Pai, para sermos nutridos de sua substância e tornarmo-nos partícipes do Reino de Deus.
Há, além disso, o ritual do serviço divino próprio da Igreja anglicana indicado no "Book of common prayer" (1549), em que se sente a influência luterana, oriental e católico-romana e que foi reformado em 1662. A partir do final do século XIX, o movimento litúrgico suscita idéias novas no conhecimento litúrgico, exige aprofundamentos teológicos, tanto da parte protestante como da católica. Entre os protestantes, o movimento litúrgico foi promovido por F. Spitta e J. Smend e depois por R. Otto e F. Heiler, todos animados pelo desejo de fazer reviver o sentido da oração comunitária e a ativa participação dos fiéis no culto.
Entre os católicos, o retorno a formas de liturgia antiga, em que esteja presente toda a comunidade, entrelaçou-se com a obra dos beneditinos de Solesmes, com o abade P. Guéranger, morto em 1875, e, na Alemanha, com a dos beneditinos Mauro e Plácido Wolter, fundadores da congregação de Beuron. Da liturgia, L. Beauduin dá uma definição tão breve quanto eficaz: "A liturgia é o culto da Igreja": "Igreja" absorve o sentido comunitário e ao mesmo tempo cristológico, sendo a continuação de Cristo no mundo.
O beneditino alemão O. Casel de Maria Laach (1886-1948) insistiu sobre o valor da liturgia como "celebração" do mistério salvífico de Cristo, que se torna presente no rito, a ponto de a assembléia poder louvar e adorar a Deus "em espírito e verdade".
O papa Pio X acolhe esse grande novo impulso que se localiza principalmente na Bélgica na universidade católica de Louvain, depois na Holanda, na Alemanha na abadia de Maria Laach, e na Áustria em Klosterneuburg.
Todos esses fermentos de renovação e de aprofundamento litúrgico introduzem também "novidades" que incidem sobre os aspectos doutrinais, incorrendo em infrações disciplinares.
Por meio da encíclica Mediator Dei, promulgada em 20 de novembro de 1947, o papa Pio XII interveio nessa situação de confusão, movido por preocupações pastorais e ao mesmo tempo de adaptação às exigências religiosas e culturais modernas. Nessa encíclica, a liturgia é definida em relação ao conteúdo como "a continuação do ofício sacerdotal de Cristo", ou mesmo "o exercício do sacerdócio de Cristo". Quanto à sua realidade completa de celebração, "é o culto público total do corpo místico de Cristo, cabeça e membros".
A liturgia, portanto, por sua natureza interna, é sacramental, sendo sempre sinal de uma efetiva presença de Cristo. Além disso, Cristo prestou um culto perfeito ao Pai, glorificando-o na total adesão à Sua vontade, na qual assumiu todos os redimidos, libertando-os das obras de morte.
Por último, ela é exercida necessariamente nos ritos que realizam, por intermédio dos símbolos, a obra santificadora de Cristo em relação a cada um de nós. Em 1962, o concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII, oferece como seu primeiro documento justamente a constituição "Sacrosanctum Concilium", voltada para a reforma litúrgica, que obteve na votação dos Padres Conciliares, dia 4 de dezembro de 1963, 2147 placet contra 4 non placet e foi aprovada definitivamente pelo papa Paulo VI.
Com essa constituição, reafirma-se o significado de liturgia expresso na constituição anterior, "Mediator Dei", ressaltando, porém, o aspecto "pascal", realidade e mistério, "lugar" coextensivamente teológico e litúrgico: o mistério pascal não é "um dia" no calendário religioso, mas é o plano de salvação divina tornado atual na revelação em Cristo.
A Igreja, portanto, é continuamente "profecia" que anuncia o mistério e atualiza-o na ação litúrgica. Essa constituição aborda, além disso, aspectos normativos das celebrações festivas, dos santos, da administração dos sacramentos, da abertura às línguas locais com o objetivo de ajudar a "concelebração do sacerdote com os fiéis
Fonte:http://www2.uol.com.br/jubilaeum/tempo.htm